Após quase um ano de intensa formação, 20 estudantes concluíram a especialização HABITATHIS, uma iniciativa inédita coordenada pelo LabHab/FAU-USP, em parceria com a Secretaria de Habitação e Desenvolvimento Urbano da Prefeitura de Diadema, o Conselho de Arquitetura e Urbanismo de São Paulo (CAU/SP) e a assessoria técnica Peabiru TCA. O curso teve como foco central a capacitação de profissionais para atuarem no campo da habitação de interesse social, trazendo uma proposta pedagógica que alia teoria, prática e ação direta no território.
A formação dos especializandos foi marcada por um conjunto de atividades que conectou o conhecimento acadêmico com a realidade social e urbana da cidade de Diadema (SP). A colaboração entre os técnicos da prefeitura, professores da FAU-USP e os profissionais da Peabiru TCA garantiu que os alunos tivessem uma experiência prática intensa, que envolveu não apenas o aprendizado sobre políticas habitacionais e urbanas, mas também projetos concretos voltados para a melhoria das condições de moradia no município.
As visitas técnicas foram uma parte essencial da formação dos alunos, permitindo que eles se conectassem diretamente com a realidade habitacional local. Logo no início do curso, os especializandos visitaram o Núcleo Habitacional Gazuza e outros territórios importantes para as políticas de urbanização e melhorias habitacionais do município. Essas visitas, conduzidas pelos técnicos da prefeitura, aprofundaram o entendimento sobre as dificuldades e as oportunidades de atuação no campo da habitação de interesse social, fortalecendo a formação prática dos alunos.
Um dos principais resultados do curso foi a realização de 500 levantamentos métricos e sociais no Núcleo Habitacional Gazuza. Essa etapa, fundamental para o desenvolvimento de futuras obras de melhorias habitacionais, foi possível a partir do aperfeiçoamento de uma metodologia de levantamento métrico-arquitetônico e social baseado no preenchimento de fichas técnicas e a utilização de outros instrumentais de apoio já utilizados pela Prefeitura de Diadema. Para isso, foi necessária a discussão desta metodologia que reunisse os conhecimentos teóricos debatidos em aula, mas, sobretudo, as experiências compartilhadas pelos técnicos do município.


Avanços metodológicos e políticos
Buscando aprimorar as ferramentas metodológicas para o campo, os estudantes produziram um manual de trabalho voltado ao levantamento das habitações. A partir das discussões em sala de aula e das experiências práticas, os especializandos adaptaram as fichas de levantamento utilizadas pela prefeitura, sistematizando uma metodologia colaborativa que levou em consideração as especificidades locais. O manual, que se mostrou um importante produto didático, pode servir como referência tanto para futuras intervenções em Diadema, quanto para outros projetos de assessoria técnica.
Com os levantamentos concluídos, teve início à elaboração dos projetos de melhorias habitacionais para o Núcleo Habitacional Gazuza. Esta etapa foi uma das mais desafiadoras do curso, pois envolveu a análise detalhada das informações coletadas e a criação de soluções arquitetônicas para as habitações visitadas. Cada domicílio recebeu um projeto específico, focado em alternativas técnicas que abordaram desde reforços estruturais até reformas elétricas, hidráulicas e estéticas. A qualidade dos projetos foi supervisionada pelo suporte contínuo dos técnicos da Prefeitura de Diadema, dos professores e monitores da FAU-USP e dos assessores da Peabiru, que contribuíram para a cultura acumulada ao longo dos anos pela administração local.
Outro resultado do curso foi a modelagem 3D do Núcleo Habitacional Marilene, também na cidade de Diadema. Utilizando softwares de arquitetura, os especializandos produziram uma modelagem tridimensional que permitiu uma visão detalhada do território, analisando sua topografia e disposição das habitações. Esse processo foi crucial para o desenvolvimento de alternativas urbanas e habitacionais mais precisas, adaptadas às condições locais e às necessidades dos moradores.
Impacto social da especialização
A parceria entre a FAU-USP, a Prefeitura de Diadema, o CAU/SP e a Peabiru TCA, possibilitou a criação de uma experiência de ensino que foi além da sala de aula, conectando teoria e prática em um ciclo contínuo de aprendizado e transformação. A especialização HABITATHIS é uma prova de que a cooperação o entre a academia e a prática pode colaborar para enfrentar os desafios habitacionais brasileiros.
A iniciativa foi, inclusive, reconhecida na 2ª edição do Prêmio Periferia Viva, promovido pelo Ministério das Cidades, através da Secretaria Nacional de Periferias. A premiação tem por objetivo reconhecer iniciativas que lutam para minimizar os riscos socioambientais nas periferias, transformando áreas vulneráveis em modelos de resistência e adaptação. No eixo “Iniciativa de entes públicos governamentais”, a especialização HABITATHIS ficou em 7º lugar na classificação final, dentre as 42 iniciativas finalistas do prêmio.
Destaque no Jornal da USP
No dia 11 de outubro, o Jornal da USP publicou uma matéria sobre a especialização HABITATHIS, a partir de entrevistas com moradores locais, técnico da prefeitura, alunas e os coordenadores do curso, Caio Santo Amore e Karina Oliveira Leitão. Sob o título “Estudantes da USP projetam reformas para 500 casas de comunidade em Diadema“, o texto destacou os projetos de reforma que foram produzidos como etapa final do curso:
Os estudantes conversaram com os moradores e levantaram os problemas nas condições de centenas de casas para propor soluções. São soluções para problemas de iluminação, ventilação, segurança ou infiltrações, por exemplo. O professor Caio Santo Amore, coordenador da especialização Habitathis, explica que as melhorias habitacionais fazem parte do conjunto de políticas públicas para a urbanização de favelas. “É uma nova camada de urbanização”, diz ele.
A reportagem também traz um vídeo produzido pela TV USP, que conta a experiência de moradia no Gazuza de Miguel de Souza Pereira e Moralinda Mathias (Dona Mora), moradores do bairro desde 1992 e que realizaram a edificação da sua casa através da autoconstrução.
Todas as casas contempladas pelo projeto do LabHab foram construídas pelos próprios moradores, atuais ou anteriores. Seu Miguel e Dona Mora construíram a sua em etapas. Primeiro fizeram o porão, construído no aterro onde antes era um barranco. Depois vieram o térreo, que já estão reformando por conta própria para alugar; o primeiro andar, onde fica o coração da casa; e o andar de cima, com um terraço na laje e um cômodo onde Dona Mora mantém sua oficina de artesanato. Os pavimentos foram construídos em etapas, ao longo do tempo, contando com a ajuda de amigos e parentes. A obra da laje só terminou em 2014.
A seguir, confira o vídeo:
